Cheguei a casa um pouco antes das nove da noite. Hoje trabalhei durante quase quatorze horas, peguei às sete. Meu filho, muito saudoso, abraçou-me forte, chamou-me de amor verdadeiro, deitou-se por cima de mim. Li o livrinho novo que ele ganhou na escola. Ele perguntou "quando vamos jantar?" e foi pro seu quarto. E só.
Só isso que fui de mãe para ele hoje. Conversei um pouco com o pai, um pouco com os irmãos, coisa de vinte minutos. Quando me levantei para preparar a janta - ia ser um miojo - ele já estava dormindo. E só.
Fui também um pouco diretora, de manhã, na escola, quando lhe pedi que se comportasse melhor durante o recreio, sabedora já das que aprontou com a professora. E só.
Para me sentir melhor, para aliviar a culpa que sinto, faço muito carinho nos alunos - principalmente nos meninos, principalmente naqueles que sei não terem nenhum carinho em casa... Principalmente naqueles que aprontam muito na escola, como o meu filho apronta. Principalmente naqueles que, justamente por aprontarem muito, não têm a simpatia e a atenção carinhosa de seus professores.
Portanto, fui mãe do Matheus, do Luis, do Marcos, do Vitor, do Rafael, do Fernando, do Carlos, do...
Só não fui mãe do Caio.